A gestão dos riscos de roubo e furto em empresas

No Brasil as perdas das empresas com roubos e furtos causadas por agentes internos e externos é superior a 1,5% do faturamento, por isso a gestão destes riscos pode assegurar vantagem competitiva através do biônimo preço/lucratividade. A missão deste artigo é apresentar os pilares para uma gestão eficiente e eficaz destes riscos

O que é risco ?
Desde os primórdios da humanidade, incertezas, ameaças e oportunidades sempre andaram de mãos dadas.

A procura por alimentos e abrigo expôs o homem a ameaças de natureza física e climática, por sua vez, quem não se arriscasse e enfrentasse as condições adversas não sobrevivia. Nas comunidades que foram surgindo, os períodos de escassez de alimentos, as doenças e as guerras dizimaram milhares de homens. Contudo, apesar das perdas geradas por estes eventos, eles também foram os precursores de avanços nos mais diversos campos do conhecimento.

Com o advento da navegação os vikings desafiaram os mares e percorreram grandes distâncias ao longo da costa norte da Europa e segundo alguns estudiosos até da América, as incertezas nas viagens eram compensadas pelas oportunidades de pilhagens.

Mais tarde, com desenvolvimento da navegação mercantil o conceito de risco como evento incerto de conseqüências positivas ou negativas tornou-se ainda mais claro. A venda das mercadorias que chegavam nos navios asseguravam altos retornos financeiros. Em contrapartida os naufrágios e os saques promovidos pelos piratas quando ocorriam geravam grandes perdas.

Hoje, assim como no passado, os riscos continuam fazendo parte do nosso dia-a-dia, ao nos levantar, locomover, executar tarefas, divertir, participamos de eventos que nos expõem a riscos positivos e negativos e com as mais variadas intensidades.
Dada a onipresença do risco desde os primórdios da humanidade era de se esperar que a definição da palavra risco não fosse polêmica, mas unânime, porém não é o que acontece nem em relação á sua derivação nem a sua definição.

Segundo Peter Bernstein no livro Desafio aos Deuses, a palavra “risco” deriva do italiano antigo “risicare”, que significa “ousar”. Outros autores acreditam que a origem vem de “resecare”, utilizada na descrição pelo rompimento (corte) dos cascos dos navios causada por relevos marítimos agudos que podiam por a pique os navios, outros ainda acreditam que a derivação vem do latim risicu e riscu “ cujo significado está associado a incerteza.

No que tange á definição, segundo o dicionário Aurélio risco é: “um perigo”. Já para Webster´s Dictionary risco é: “a possibilidade de perda ou prejuízo ou alguém criar um perigo.” Nos dois casos as definições são no mínimo incompletas uma vez que consideram apenas o aspecto negativo do risco, não referenciando o lado positivo.
Para a ISO 31000 risco é: “O efeito da incerteza nos objetivos´´. A definição no meu entender ao colocar o risco como efeito também não o define corretamente, porque risco não é o efeito, mas a associação da incerteza com o efeito.

Já o Institute for Risk Management define risco como: “A combinação da probabilidade de um evento e suas conseqüências”. Entendo ser esta a definição mais próxima do que é risco, uma vez que expressa, de forma clara, que todos os riscos tem como característica possuírem três componentes, o evento, a probabilidade e o impacto. (Figura 1).

componente-risco

Figura 1: Componentes de Risco

O componente evento estabelece a relação de causa e efeito. Todo o risco tem uma origem ou causa e ao se materializar gera uma conseqüência ou efeito. Os outros dois componentes a probabilidade, está associada à causa do evento e o impacto ao efeito da materialização desse evento. Ou seja, ao agirmos sobre as causas do evento alteramos a probabilidade de ocorrer e ao agirmos sobre o efeito alteramos o impacto.

Os Riscos de Roubo e Furto

O conjunto de condições que levam à materialização dos riscos de roubo e furto estão relacionados a três fatores:

  • A atratividade do ativo para no criminoso;
  • A capacidade do criminoso de realizar o ato;
  • As vulnerabilidades da segurança causadoras de oportunidade para que a prática delituosa se concretize.

Das três condições as duas primeiras independem do gestor, estando sob seu controle apenas a redução das vulnerabilidade da segurança, desta forma, para desestimular a materialização dos riscos de roubo e furto cabe ao gestor agir sobre as vulnerabilidades das segurança adotando medidas de proteção dos ativos que causem ao criminoso a percepção de que o provável benefício advindo do ato criminoso será menor que o provável custo da operação criminosa.

A equação abaixo sintetiza a análise do criminoso sobre praticar ou não um delito de roubo ou furto.

RE = BE – CE
RE = Retorno esperado do ato criminoso;
BE = Benefício Esperado (provável benefício advindo do ato criminoso);
CE = Custo Esperado (Custo provável para execução do ato criminoso em si + Custos prováveis decorrentes do ato).

É importante considerar ainda que, o RE- Retorno Esperado do ato criminoso sempre terá um fator subjetivo, o da utilidade do ativo para o criminoso, que por sua vez, varia ao longo do tempo. Desta forma, fica claro que equalizar o nível de proteção dos ativos ou perpetuar planos de respostas sem considerar essas mudanças, são práticas erradas e que, ao longo do tempo, se mostrarão sugadoras de recursos e ineficientes.

A Gestão dos Riscos de Roubo Furto
Para não se cometer este erro, é fundamental estabelecer-se um processo de gerenciamento contÍnuo dos riscos, como o exemplificado na Figura 2, que explora 4 etapas cíclicas:

Figura 2 - Modelo cíclico do processo de gerenciamento de riscos

Figura 2 – Modelo cíclico do processo de gerenciamento de riscos

Etapa 1: Identificar os riscos. Nesta fase são listados os ativos com atratividade para os criminosos (demanda no mercado paralelo ou negro), descritos os eventos de risco a que estão sujeitos, as causas e os efeitos, onde estão localizados e por fim, os agrupamos em categorias.

Etapa 2: Avaliar os riscos. Nesta fase cada risco é analisado, diagnosticado com o objetivo de ser medido. A métrica que procuramos conhecer é a PE- Perda Esperada ou o GE – Ganho Esperado de cada risco, produto resultante da multiplicação do impacto, efeito da materialização do risco, pela probabilidade de ocorrer, variável recorrente das causas e que pode ser estimada utilizando métodos quantitativos e/ou qualitativos.

PE ou GE = Pb x I
PE ou GE = Perda ou Ganho Esperado;
Pb = Probabilidade do evento ocorrer;
I = Impacto (Somatório dos efeitos do evento).

Com o valor da PE- Perda Esperada e do Ganho Esperado de cada risco podemos ordená-los por grau de importância e desta forma encerramos a etapa 2.

Etapa 3: Desenvolver respostas. Com a identificação (Etapa 1) e o estabelecimento do grau de importância de cada risco (Etapa 2) temos um mapa completo e estamos prontos para responder as questões desta fase:

  • Qual a prioridade?
  • Quanto investir?
  • Qual dos 4 Ts adotaremos como resposta a cada risco? Se a decisão for por tratar, que recursos de segurança utilizaremos?

A prioridade é normalmente estabelecida com base no ordenamento da maior para a menor das PE- Perdas Esperadas ou dos Ganhos Esperados. O investimento em cada risco, depende do apetite da organização. Já, as respostas serão estabelecidas a partir das seguintes abordagens: Tolerar; Transferir; Terminar; Tratar (figura 3).

Caso a resposta aos riscos de roubo ou furto recaia para o tratamento, o objetivo então será reduzir o valor da PE- Perda Esperada para valores suportáveis, ou seja, a ação será implantar um plano, cujas medidas atuarão sobre as causas do evento, reduzindo desta forma a probabilidade deste ocorrer.

Figura 3 - Modelo de respostas, os 4 Ts.

Figura 3 – Modelo de respostas, os 4 Ts.

Os recursos da segurança a serem avaliados que se encontram sobre controle dos gestores, cuja inadequação causam o aumento da probabilidade de ocorrerem roubos e furtos em uma organização são: o ambiente interno; as barreiras físicas; os recursos humanos alocados na segurança; os procedimentos de segurança e os recursos tecnológicos (Quadro 1).

QUADRO 1- Recursos da segurança

QUADRO 1- Recursos da segurança

Para avaliar adequação ou inadequação de um recurso, o gestor deve questionar se este “está pronto para ….?”. “Estar pronto para …. ?” é possuir as condições necessárias para responder com sucesso à ameaça e “não estar pronto para …. ?” pressupõe que uma ou mais condições necessárias para dar resposta à ameaça não são as adequadas ou inexistem.

As respostas sim ou não da avaliação e os porquês indicam os pontos fortes e fracos da segurança da organização frente as ameaças. Desta forma, o plano de ações deve focar na transformação de cada ponto fraco em ponto forte ou no mínimo, em neutro e desta forma, contribuir para reduzir a probabilidade do evento ocorrer e conseqüentemente reduzir a PE- Perda Esperada para aquele risco.

Etapa 4: Controlar: Nesta etapa o objetivo é monitorar, avaliar se medidas do plano de ações são capazes de assegurar os objetivos propostos, se estão completas e atualizadas frente as ameaças, identificar novos riscos e oportunidades de melhoria para retroalimentar o ciclo de melhoria continua da gestão de riscos (Figura 4).

Figura 4 - Monitorar, Controlar, Rever.

Figura 4 – Monitorar, Controlar, Rever.

Finalizando

Em um mercado como o brasileiro que dia-a-dia se mostra mais competitivo, o sucesso das empresas depende não somente do corpo gerencial “ ficar de olho nas receitas e nos custos´´ mas, também, de focar a gestão dos riscos que ameaçam o negócio. Por representarem mais de 1,5% do faturamento anual dos negócios, as perdas com roubos e furtos comprometem os resultados das operações e em muitos casos até a sobrevivência das empresas. Por isso, não podem ser relegados para segundo plano pela administração. Gerenciar continuamente estes riscos é o caminho do gestor para enfrentar as incertezas e converte-las em vantagem competitiva, objetivo para o qual espero ter contribuído com este artigo.

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